City in ruins, Maria Helena Vieira da Silva, 1955

quando eu entrei aqui eu lutei por esse lugar aqui de acrílico cimentado quando as portas automáticas se abriram e então se fecharam num instante

talvez a culpa religiosa tilinte nos ossos e doa uma dor aguda nesse dia gelado mas veja bem você não vai sentar do meu lado não eu não quero que você encoste tua anca na minha

porque o café é uma entidade que envelhece o gosto na velocidade da luz do metrô sem maquinista no céu da minha boca e acentua meu ensimesmismo e me lembra estar onde eu desqueria e que as horas são terríveis e correm feito o diabo

milhões de rostos de questões milhões de vazios milhões de vazios em movimento para lugares que não foram indagados se gostariam de ser habitados por vazios

os lugares nunca na história foram respeitados

teu suéter vermelho moça contrasta com a tua tristeza

amálgama de beleza castiça nesta linha 1 nunca antes vista

ele descombina com o meu estado de espírito ele descombina com esse nosso dia de janelas que intentam imagens impressionistas meia boca pois a luz desistiu de dar o ar da graça hoje mas há pinceladas rápidas feitas pelas gotas tortas de chuva no vidro que refratam uma paleta de asmáticas cores a contornarem prédios caducos

nos fones o pós punk russo ininteligível grita descompassadamente certeiro e veste meu corpo com toda essa escuridão azul marinho de lá de fora e esse frio e conduz pura eletricidade de uns elétrons tristes num corpo estático que pensa ter o potencial de caminhar sobre as cabeças desse formigueiro que o cerca

se assim o fizesse ninguém notaria a propósito

voltemos a você: de repente seu olhar fisga o meu e eu sonsamente disfarço e fico à procura da próxima estação acima da porta mas involuntariamente ele cai e te encontra e você persiste nessa intimação e eu já te amo e já construímos uma vida porque eu sei que você lê mentes e eu também

eu já desempoeirei meu suéter vermelho pra essa ocasião e eu juro que compactuamos agorinha descombinar por aí e pintar saturação nesse frio comum

Quando as cordas tremem depois [ex-estudante de contábeis na fea usp a explorar outras linguagens que não a matemática]

Quando as cordas tremem depois [ex-estudante de contábeis na fea usp a explorar outras linguagens que não a matemática]